Mar
28
Inquietações
21:41 • Tags: introspecções, Sensações, Textos
Sinto no ar qualquer coisa que a que não fico indiferente. O sonho tem estado agitado e confuso, o olhar perde-se em pensamentos que procuram perceber o que rodeia. Talvez seja esse o meu calcanhar de Aquiles… talvez essa força directriz que impele a tudo perceber seja uma fraqueza. E a dúvida estabelece-se. Queria paz.
Tantas inquietações…
Não me consigo alienar do mundo em que vivo. Para além da introspecção que sempre me caracterizou há ainda o olhar que estendo sobre o resto, os outros, o mundo. Para onde estamos a caminhar? Estaremos a seguir uma linha evolutiva correcta do ponto de vista social? Será que o sistema democrático subsistirá tal como o encaramos hoje? Em que mundo irão viver os nossos filhos? Que lealdade e honestidade estamos a depositar nas relações pessoais? Quem somos?
Relativamente às escolas tudo se inflamou com o já mais que famoso caso do “Dá-me o meu telemóvel já”. Mas, e depois? É só isto que interessa? O maior problema que Portugal está a enfrentar é o de estar a tentar fazer o bypass estatístico. Com a pressão sentida pela vida na União Europeia temos que aumentar o número de pessoas que têm títulos. E, obviamente, à boa moda dos povos do mediterrâneo contornarmos as regras e ultrapassamos pela direita. E é aí que começa o problema… abdicamos de educar para atribuir diplomas de uma forma mais célere.
Deste modo criam-se programas de reconversão para dar às pessoas a oportunidade de voltar à escola. Mas, não serão estas iniciativas mais parecidas com campanhas publicitárias? Vários governos têm demonstrado ingerência nestas questões, não escrevo para criticar este ou aquele em particular, desabafo apenas para dizer que não tenho grande confiança na eficácia real desses programas.
Apesar de a livre escolha da carreira colidir com uma maior atenção às necessidades do mercado (que poderia eventualmente vedar o acesso a determinadas opções sazonalmente), o principal entrave está na tomada de consciência para a exigência. Apesar de eu ser um jovem que apenas viveu pouco mais de metade da sua vida em Portugal, há uma opinião que está bem cimentada em mim: o trauma social do tempo da ditadura. A nação confunde a autoridade com autoritarismo em diversos campos e a tomada de consciência para o respeito pelas regras e pela exigência dilui-se.
O que é realmente importante no processo educativo é conferir às pessoas competência para desempenharem com dignidade e confiança as funções que a sociedade lhes outorgar. Um pouco da mesma forma como acontece entre a tão falada igualdade entre homens e mulheres, a igualdade de oportunidades é confundida com a igualdade dos indivíduos. Nós não somos todos iguais. Essa desigualdade dá-nos valências diferentes que não podem, obviamente, ser todas aproveitadas no mesmo caminho. A nossa preocupação deveria ser a construção de uma garantia de formação válida para todas as vocações. Em contrário estámos a sobrevalorizar socialmente os títulos universitários que passam assim a ser cobiçados por status e não por vocação ou desejo de aprender.
Uma das coisas mais importantes que poderíamos fazer seria deixar cair os títulos. Andamos sempre com o eng. e o dr. atrás sem necessidade nenhuma quando a nossa verdadeira identidade está no nosso nome. Sem nos apercebemos estamos a impingir diariamente uma implícita noção hierárquica que obviamente contraria a tão anunciada igualdade de oportunidades. Meus caros, não seria mais fácil usar o sr. e sra. para com as pessoas mais velhas em sinal de respeito deixar e de andar com os títulos atrás? É evidente que nem toda a gente precisa de se tratar tu… e que, também, algumas situações na formação de crianças e jovens devem ser salvaguardadas. Mas, para com os adultos, há necessidade de nos embriagarmos em tanta formalidade. Não pois não?
A hierarquia associada à forma como as pessoas se tratam segue um religiosidade que contrasta obviamente com a ligeireza com que olha para o cumprimento da palavra. Falta-se ao dito de uma forma tão natural como a não menos habitual forma com que não se chega a horas. A normalidade assenta na falha e no desacerto mas, quando alguém falha connosco, somos os primeiros a protestar. E mais uma vez alimentamos o conflito de desiquilíbrio direito/dever tão comum aqui nos países mediterrânicos da Europa, um traço característico que parece trazido por um vento dissonante vindo da América do Sul. Sempre que o inspiramos parece que não importa trabalhar encima do joelho nem desrespeitar os prazos… o outro aguenta sempre, o nosso próximo aguenta sempre. E enquanto ele aguenta cada vez nos distanciamos do caminho para a melhoria.
O hábito do incumprimento e a ausência de um quadro referencial que nos remeta para o cumprimento de regras são o condimento de um cozinhado ainda mais azedo. A força directriz do nosso actual processo de crescimento e formação. Cada vez menos a família está no horizonte. Ao contrário do que seria de esperar não se evolui com o objectivo de um dia criar uma célula social de sucesso mas sim um indivíduo de sucesso. Este trajecto está a fazer de nós cada vez mais indivíduos e menos pessoas. Comunicamos cada vez mais à distância utilizando meios com que é menos complicado mentir, virar as costas ou evadir-se às responsabilidades. As pontes de afecto e companheirismo são cada vez mais frequentemente substituídas por pontes de interesse. As amizades passam a ser vistas como leques de recursos que podem ser úteis e a que chamamos “rede de contactos”. Assustadoramente, na minha opinião, ganha cada vez mais força uma ideia concebida de que as relações não duram muito tempo. Pergunto-me se o nosso conceito social de família estará a sucumbir a alguns instintos mais primitivos da espécie, será?
Não sei. Mas estamos impacientes, exigimos com os outros sem tolerar que a sociedade nos exija. Estamos egocêntricos e sazonais no que diz respeito ao interesse que damos às pessoas. Todos nos desiludem mas não desiludimos ninguém. Somos o Sol de um pequeno sistema solar ao qual chamamos vida e esperamos que os planetas girem à volta da posição estática que assumimos em egoísmo.
E a felicidade, o que será? Será que Deus joga à lotaria e nós podemos ser o objecto desse prémio. Quando vemos um sistema judicial de rosto cada vez mais descaído o que devemos pensar? Ve-mos, por exemplo, casos como o da menina Mari Luz na vizinha Espanha onde o principal suspeito do caso já deveria estar a cumprir penitência por condenações anteriores? Onde está a justiça afinal? Será que esta sensação de impunidade que nos leva a ignorar o quadro das regras? Será que essa inconsciência quanto às consequências que nos torna imprudentes?
Onde estamos?
E a justiça moral? Que dúvida paradoxal é esta que me visita quando vejo a “sorte” que praticantes de determinados comportamentos têm em contraponto com as penalizações que tantos bons e fiéis cumpridores sofrem? O que é que se passa à nossa volta?
Os bons alunos e interessados na aprendizagem são totós, os casais fiéis são retrógrados, as traições entre casais sucedem-se e determinados parceiros depositam a sua confiança em traidores que lesaram outros para ficarem com eles – como se confia numa pessoa deste género?; que partilha o que tem é olhado como ingénuo e quem rouba pertence ao grupo que sabe como “aproveitar o sistema”.
O que é isto? Para onde vamos? Quem somos?
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